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A desvalorização da moeda explora a população

O favorecimento das exportações é apenas o lado bonito da desvalorização da moeda, mas quem custeia é a população, que perde poder de compra e qualidade de vida.

*Opinião de: Leonardo Maciel | 02 fev 2020 | adaptado por Lenah Sakai | Collaborative Progress License

A demanda chinesa pela carne bovina brasileira está contribuindo para a manutenção dos preços da arroba do boi gordo em patamares elevados. Esta demanda, associada à política de desvalorização cambial (real mais depreciado), favorecem as exportações. Como o cobertor é curto e na economia a demanda é ilimitada e a escassez limitada, se pagam mais pela carne lá fora, os produtores tendem a atender aos mercados que pagam mais devido ao dólar estar mais valorizado, ocasionando uma escassez no mercado doméstico.

Esta disfunção econômica, digamos assim, se deve à política do Banco Central e do governo de desvalorização cambial. Medida idêntica defendida e “aparentemente” copiada do PND do Ciro Gomes e sua equipe de programa de candidatura. O problema desta medida, defendida por desenvolvimentistas, Keynesianos e monetaristas (chicaguistas), é que o efeito de uma moeda desvalorizada definitivamente não traz nada de positivo para a população. Guedes defendeu abertamente a política econômica de substituição de importações, algo que remete a Luiz Carlos Bresser-Pereira, que revelou-se desastrosa.

Na cabecinha dos desenvolvimentistas-keynesianos, como Ciro, e chicaguistas, como PG, com a chancela do BCB, as adversidades econômicas de um país podem ser rapidamente resolvidas por uma simples desvalorização da moeda (ou seja, um encarecimento da taxa de câmbio), nos seguintes pontos:

  • as exportações são estimuladas e, liderada por um aumento nas exportações, a indústria volta a produzir e, por conseguinte, toda a economia volta a crescer;
  • uma moeda depreciada permite aos exportadores reduzirem os preços de suas mercadorias no mercado internacional — o que os ajuda a abocanhar novas fatias de mercado — ao mesmo tempo em que suas receitas e seus lucros também aumentam. E isso traria ramificações positivas para a economia interna.

Ledo engano. É a velha mania e arrogância dos economistas mainstream, cujo raciocínio olha apenas um lado da equação e ignorando absolutamente todo o resto da economia. A primeira grande encrenca é que, no mundo globalizado em que vivemos, vários exportadores são também grandes importadores. No Brasil não é diferente (ou é?). Para fabricar, com qualidade, seus bens exportáveis, eles necessitam de importar máquinas e matérias-primas de várias partes do mundo. Avaliem o setor siderurgia, mineração e metalurgia e entenderão meus argumentos abreviados.

Nenhum país que tem moeda fraca e inflação alta produz bens de qualidade que são altamente demandados pelo comércio mundial. Todos os bens de qualidade são produzidos em países com inflação baixa e moeda forte. Apenas olhe a qualidade dos produtos alemães, suíços, japoneses, americanos, coreanos, canadenses, cingapurianos etc. Se moeda forte fosse empecilho para a indústria, todos esses países seriam hoje terra arrasada. No entanto, são nações fortemente exportadoras. Moeda forte e muita exportação.

Outro ponto importante é que a desvalorização da moeda só traz malefícios, pois ela gera carestia em praticamente todos os bens do mercado interno. Até mesmo os preços de coisas básicas como remédio, pão, carne e combustíveis encarecem em decorrência de uma alta do dólar. Vamos a problemática da carne. De um lado, a desvalorização tende a aumentar as exportações, o que reduz a oferta interna e aumenta os preços (estamos vendo empiricamente); de outro, encarece o preço dos insumos, como milho e soja (que são commodities precificadas em dólar; se o real se desvaloriza perante o dólar, o preço dessas commodities em reais aumenta). E, dado que milho e soja são utilizados como ração para a suinocultura, seu encarecimento afeta todo o custo de produção.

Portanto, além de encarecer alimentos, remédios, e todos os importados (de eletroeletrônicos e utensílios domésticos a roupas e mobiliários), a desvalorização cambial também encarece os preços dos combustíveis e, consequentemente, dos fretes terrestres (diesel é petróleo e petróleo é cotado em dólar), das passagens aéreas (querosene é petróleo), das passagens de ônibus, e até mesmos os preços dos alugueis e das tarifas de energia elétrica (ambos são reajustados pelo IGP-M, índice esse que mensura commodities e matérias-primas, ambas sensíveis ao dólar). Entretanto, é verdade que se todo esse aumento do custo de vida doméstico não fizer com que os trabalhadores exijam reajuste salarial, então de fato os exportadores — aqueles que não possuem muitos maquinários importados em sua linha de produção — realmente irão se beneficiar com uma desvalorização cambial.

Mas, vale ressaltar, o ganho dos exportadores ocorreu em detrimento da redução do poder de compra, em termos reais, dos trabalhadores. Por outro lado, se os trabalhadores exigirem um reajuste salarial de modo a restaurar seu poder de compra, então os ganhos dos exportadores serão anulados. A depreciação cambial terá criado um ganho apenas temporário para os exportadores, mas terá gerado uma carestia permanente para todo o restante da população.

Desvalorização cambial é apenas mais um exemplo de governo e Banco Central agindo como um Robin Hood às avessas, tomando de quem não tem para dar a quem tem. Como menciona Anthony P. Geller: Quando a moeda é desvalorizada, o governo está simplesmente elevando os custos de se trabalhar e produzir, afetando o padrão de vida da população. A consequência inevitável é que uma minoria é protegida e uma esmagadora maioria é prejudicada, pois seu poder de compra foi atacado e, consequentemente, seu padrão de vida foi restringido. É tautologicamente impossível desvalorizações da moeda aumentarem o padrão de vida de uma economia, pois, por definição, obrigar a população a utilizar uma moeda com menor poder de compra e a pagar mais caro por bens nacionais de pior qualidade não são medidas que possam elevar a qualidade de vida de uma população. Questão de lógica básica.

Pior: por reduzirem a renda disponível da população — que agora tem de pagar mais caro pelos produtos nacionais —, desvalorizações comprovadamente reduzem investimentos e, consequentemente, a geração de empregos. Não há mágica. Todos os outros agentes econômicos são afetados por uma política de desvalorização cambial. Os consumidores terão de lidar com preços maiores em praticamente todos os produtos, desde gêneros alimentícios e transportes até móveis (que são fabricados com commodities transacionadas em dólar), utensílios domésticos (desde panelas de aço a aparelhos eletroeletrônicos). E os empreendedores que utilizam produtos importados — uma simples firma que utiliza computadores e precisa continuamente comprar peças de reposição — vivenciarão um grande aumento de custos.

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